É lógico que Deus existe? – IV

Série de relatos de aulas ministradas em 2016.

Devo dizer que não sou muito favorável ao modo como ministrei essa última aula, pois ela foi demasiado expositiva. Prefiro algo mais dialogado. Porém, porque não pretendia me estender mais ainda no tema tempestuoso sobre a possibilidade ou impossibilidade de provar a existência de Deus, a desenvolvi em outro ritmo, o que pode ser, didaticamente, questionável. Para além disso, porque não deixei claro antes, só inseri esse tema no fluxo das aulas para dar conta de um cronograma de conteúdos que creio possíveis de serem cobrados no Enem e porque era possível conciliar com alguns tópicos de lógica. Dito isso, vamos ao relato.

Comecei a aula relembrando a versão simplificada do argumento ontológico – ou antes resumida, pois o argumento não deixa de ser complexo:

(A) Deus possui todas as perfeições.

(B) Existir é uma perfeição.

(C) Logo, Deus existe.


Após, apresentei aos alunos uma versão do argumento cosmológico:

(D) Tudo que começa a existir tem uma causa.

(E) O Universo começou a existir.

(F) Portanto, o Universo teve uma causa.

Aliás, me dei conta que sei muito pouco sobre esse argumento. Começando por sua autoria: atribuí ela a David Hume, confundindo o argumento cosmológico com o argumento do desígnio, e confundindo também a posição de Hume, um crítico do referido argumento, e não um defensor, como apresentei em aula.

Então passei para a explicação das cinco vias de São Tomás de Aquino. Já havia deixado pronto alguns desenhos no quadro, como um fogo, uma chaleira, uma caneca e uma pessoa enrolada em uma coberta, segurando uma caneca. Logo abaixo desenhei uma semente e, ao lado, uma melancia e uma abóbora.

Li o trecho em que Tomás de Aquino apresenta a primeira via que defende a existência de Deus de um só fôlego. Comecei explicando o vocabulário aristotélico de “potência” e “ato” pelos desenhos da semente, melancia e abóbora. Disse que ali tínhamos uma semente de melancia, contrariando a opinião da maioria dos alunos de que era um feijão, e perguntei-lhes o que a semente se tornaria no futuro. Responderam que uma melancia, ora. Então perguntei: “E isso quer dizer o quê?” Não souberam responder, claro, porque não estavam familiarizados com o vocabulário. Respondi que a semente de melancia era uma melancia em potência, mas uma semente de melancia em ato. Potência, tal como concebido por Aristóteles e relido por Tomás de Aquino, pode ser compreendido como a possibilidade de mudança de algo, isto é, é possível que a semente de melancia se torne uma melancia, pois ela é uma melancia em potência, mas não é possível que se torne uma abóbora, por exemplo, pois não é uma abóbora em potência. Ademais, quando a semente se torna a melancia, ela já não é em potência, mas em ato. Em outras palavras, atualmente ela é uma melancia, não mais potencialmente. Como um conceito é compreendido por oposição ao outro, perguntei ainda se uma melancia em ato é uma semente de melancia em potência. Os alunos responderam que não, pois ela não poderia voltar a ser uma semente.

Então passei para os desenhos feitos a cima no quadro.

Disse a eles que, nesse final de semana, quando estivessem se preparando para uma maratona de Netflix… Então me corrigiram: iriam estudar! Me corrigi e continuei: quando estivessem se preparando para estudar, por causa do frio, preparariam um chazinho. A sequência começaria pelo fogo, que é quente em ato, que então moveria a água da chaleira, fria em ato e quente em potência, que ficaria quente em ato e fria em potência, e então seria despejada na caneca, antes uma caneca de chá em potência e agora atualizada, para então chegarmos à última figura: eles enrolados em uma coberta, tomando chá e estudando. Compreenderam com bastante facilidade a sequência. Mas então disse a eles que a sequência não cessava assim. Tomás de Aquino via pelo menos duas possibilidades de essa sucessão de movimentos ser compreendida: ou regredindo infinitamente, ou tendo um primeiro motor, que seria Deus. Ora, segundo Tomás de Aquino, se regredisse ao infinito, não haveria um primeiro motor, e se não houvesse um primeiro motor, não haveria movimento. Por isso, diz Tomás de Aquino, existe um primeiro motor, que é Deus.

Sobre a segunda via, limitei-me a dizer que se tratava de uma reformulação da primeira, apenas ignorando os conceitos de potência e ato e alterando movimento por causa eficiente. Fiz um esquema bastante simplório no quadro para representar o argumento.

A partir de então minha criatividade começa a ficar rarefeita. A terceira via tentei explicar da melhor forma como achei possível, tentando oferecer um resumo do argumento. Disse que, assim como as coisas podem existir, elas podem também não existir. E que, se elas poderiam não existir, isso quer dizer que em algum momento nada existiria. Por isso, seria possível que nada existisse nesse instante, e se isso ocorresse, nada poderia ser criado, pois nada pode ser criado a partir do nada. Porém, existem coisas e elas não podem ser originadas do nada. Logo, algo deve existir necessariamente para que todo o resto pudesse ser criado, que é Deus.

quarta via apresentei como se fosse um argumento por analogia: disse que o fogo poderia ser compreendido como o grau máximo do calor, e portanto, a causa de todas as coisas quentes. E quanto mais distante algo está desse fogo, menos quente é. De modo semelhante seria com Deus. Ele seria o grau máximo de todas as perfeições, e nós teríamos as mesmas qualidades em graus de imperfeição. Portanto, ele seria a causa de nossas qualidades.

Por fim, a quinta via apresentei de maneira equivocada, creio. Disse aos alunos que podemos perceber que existem animais irracionais entre nós, e usei como exemplo a cachorra que dormia na poltrona da sala. Ora, nós, seres humanos, somos guiados por nosso próprio intelecto, mas os animais irracionais não têm intelecto que os guie. (Uma aluna me interrompeu indagando: “Será?”, pergunta da qual escapei respondendo que “era nisso que Tomás de Aquino acreditava”) Logo, deve existir um intelecto superior que os dirija para seus respectivos fins, que é Deus. Digo que apresentei de maneira equivocada o argumento, porém, pois Tomás de Aquino não parece querer tratar apenas de animais irracionais, mas de uma certa ordem que respeita o mundo como um todo. Assim, Deus seria o grande governante por trás dessa organização suprema a que está submetida a natureza. De todo modo, sugeri que assistissem como complemento da aula o vídeo da Hora do Enem dedicado à Escolástica e ao São Tomás de Aquino.

PS.: Encontrei os quadrinhos de Tomás de Aquino que estão no corpo do post num blog dedicado ao filósofo.

Autor: Matheus Penafiel

Formado em Filosofia pela UFRGS, especializa-se em Ensino de Filosofia na UFPel. Atualmente, é professor no Pré-Vestibular Esperança Popular, no Colégio Santa Inês e LaSalle Pão dos Pobres.

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